Em um cenário global marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo e pela consolidação de uma ordem multipolar fragmentada, a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) apresentou sua agenda estratégica para o ciclo 2026–2030.
Para a entidade, o contexto geopolítico atual amplia os desafios à governança internacional e reforça a necessidade de modelos econômicos baseados em cooperação, inclusão e participação democrática.
Segundo a ACI, o movimento cooperativo se posiciona como um vetor de estabilidade social e desenvolvimento sustentável diante do aumento das tensões políticas, econômicas e institucionais em diferentes regiões do mundo.
A organização destaca que, em economias fortemente orientadas ao capital, as cooperativas mantêm protagonismo ao operar com base em valores como solidariedade, democracia econômica e inclusão social. Mesmo em um ambiente de fragmentação política e instabilidade regulatória, o setor segue atuante e resiliente.
Esse reconhecimento foi reforçado em 2025, durante o Ano Internacional das Cooperativas proclamado pela ONU. Em dezembro do mesmo ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que estabelece a realização de um Ano Internacional das Cooperativas a cada dez anos, a partir de 2035.
A decisão consolida o papel das cooperativas como instrumentos estratégicos para o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo metas ligadas à redução da pobreza, inclusão econômica e resiliência climática.
A Estratégia 2026–2030 será oficialmente lançada no próximo ano e está estruturada em três eixos centrais: Praticar, Promover e Proteger. A proposta busca traduzir princípios históricos do cooperativismo em ações concretas de fortalecimento institucional e ampliação de impacto global.
No eixo Identidade e Cultura, a ACI trabalha na atualização da Declaração de Identidade Cooperativa, com o objetivo de adequar os princípios do movimento aos desafios contemporâneos.
Está prevista também a implementação do programa CulturalHeritage.coop, voltado à valorização do legado histórico do cooperativismo e à sua integração ao ambiente digital e social.
Já no pilar Política e Influência, a entidade pretende reduzir a distância entre conscientização pública e legislação, promovendo a harmonização de marcos regulatórios e ampliando sua atuação em espaços multilaterais como ONU, G20, Organização Internacional do Trabalho (OIT), FAO e Tribunal Internacional de Justiça.
A meta é consolidar a Economia Social e Solidária como força econômica reconhecida globalmente.
No eixo Crescimento e Impacto, a ACI estabeleceu o objetivo de ampliar o impacto econômico agregado do setor de US$ 3,7 trilhões para US$ 5 trilhões até 2035, quando será celebrado o próximo Ano Internacional das Cooperativas. Atualmente, a organização reúne 321 entidades associadas, o maior número desde 1994.
O ano de 2026 será marcado por eventos estratégicos e processos de renovação institucional. Entre os compromissos, destaca-se a participação da ACI, nos dias 5 e 6 de fevereiro, na 64ª Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social, em continuidade aos desdobramentos do IYC2025 e da Segunda Cúpula Social Mundial, realizada em Doha.
Em maio, a entidade participa de uma conferência conjunta da ICBA/ICA, em Nova Iorque, voltada ao fortalecimento do sistema bancário cooperativo e ao debate sobre empreendedorismo no sistema financeiro global.
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Outro destaque será a realização da primeira Cúpula de Líderes CM50, nos dias 29 e 30 de junho, reunindo executivos e lideranças cooperativistas para discutir o futuro do trabalho e inovação.
O encontro será estruturado em torno de cinco compromissos: comunidades resilientes, acesso a capital cooperativo, ecossistema digital cooperativo, sistemas alimentares sustentáveis e liderança com propósito.
Entre 14 e 17 de setembro, a Cidade do Panamá sediará a Conferência Global da ACI e a Assembleia Geral eletiva, em parceria com a ACI Américas, ocasião em que será eleito o novo conselho da entidade para o próximo ciclo.
A ACI anunciou investimentos em serviços voltados às organizações associadas, incluindo o desenvolvimento de uma plataforma digital ampliada para acesso a pesquisas, dados, conteúdos formativos e intercâmbio de experiências.
As ações de capacitação em governança, liderança e inovação serão fortalecidas por meio da parceria ICA–União Europeia, no âmbito do programa #coops4dev. A estratégia também prevê maior articulação com escritórios regionais e organizações setoriais.
Entre outras prioridades estão o diálogo legislativo, a atuação junto a organismos internacionais, a promoção da igualdade de gênero, o engajamento da juventude e o apoio a cooperativas que operam em contextos de crise ou vulnerabilidade.
O International Cooperative Entrepreneurship Think Tank (ICETT) ficará responsável pela divulgação do relatório sobre os benefícios das cooperativas e pelo lançamento do World Cooperative Monitor, que reúne dados sobre o impacto econômico das maiores cooperativas e mutualidades do mundo.
A entidade também anunciou a criação de um banco de dados global de direito cooperativo, de código aberto, com o objetivo de consolidar a ACI como referência internacional em legislação cooperativista.
Ao final, a ACI reforça o chamado à participação ativa de suas organizações associadas na implementação da estratégia. Para a entidade, o engajamento coletivo será decisivo para fortalecer uma infraestrutura global capaz de proteger interesses comuns e ampliar a representatividade do cooperativismo no cenário internacional.
Segundo o Escritório Global da ACI, os próximos cinco anos serão determinantes para consolidar um modelo econômico centrado nas pessoas e no planeta, com sustentabilidade financeira e impacto social de longo prazo.
Foto: Rodeo Project Management Software/Unsplash

