A expansão do trabalho mediado por aplicativos e plataformas digitais pode limitar a redução da massa de rendimentos e atrasar a convergência da inflação à meta de 3% ao ano, segundo especialistas ouvidos pelo Broadcast, do Grupo Estado.
A avaliação ocorre mesmo em um ambiente de juros elevados por período prolongado e de sinais iniciais de desaceleração da atividade.
Em 2025, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou a abertura de 1,27 milhão de vagas formais, o pior saldo anual desde 2020.
Ainda assim, a taxa média de desemprego foi de 5,6%, a menor da série histórica da Pnad Contínua, do IBGE, que considera tanto empregos formais quanto informais.
O rendimento médio real do trabalho aumentou 5,7% em relação a 2024, alcançando R$ 3.560. Já a massa de rendimentos real habitual subiu 6,4% no trimestre encerrado em dezembro. Para o economista André Perfeito, esse desempenho reforça a tese de que a Selic “não vai domar o mercado de trabalho”.
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Em análise publicada em 2 de fevereiro, Perfeito argumentou que o mercado passa por uma mudança microeconômica, marcada por novos arranjos trabalhistas e pela expansão do trabalho por conta própria via aplicativos e internet. Segundo ele, há uma dinâmica aspiracional de “ser patrão de si”, além de fatores como o Bolsa Família.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, reconhece sinais de desaceleração. Na série com ajuste sazonal, os trimestres encerrados em novembro e dezembro de 2025 registraram o maior número de pedidos de seguro-desemprego desde julho de 2020.
Ainda assim, ele avalia que o aquecimento do mercado informal via plataformas deve impedir uma queda relevante da massa de rendimentos em 2026.
Estudo do IBGE divulgado em outubro, com base na Pnad, mostrou que trabalhadores de aplicativos têm rendimento médio superior ao dos demais.
Em 2024, os “plataformizados” receberam, em média, R$ 2.996, ante R$ 2.875 entre os que não atuam por apps. Em contrapartida, a jornada média semanal foi maior: 44,8 horas, contra 39,3 horas.
O número de trabalhadores em plataformas cresceu cerca de 25% entre 2022 e 2024, alcançando ao menos 1,7 milhão de pessoas em atividades como transporte de passageiros, entregas e serviços diversos.
Para Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, parte da taxa de desemprego em mínimas históricas está ligada à popularização desses aplicativos.
Segundo ele, a desocupação poderia estar até 1 ponto porcentual mais alta sem o trabalho via plataformas.
Duque afirma ainda que, nos últimos anos, o ganho de renda foi maior entre os grupos mais propensos a ingressar nesse tipo de atividade, com diferença que chega a R$ 300 em relação ao restante da força de trabalho.
Para ele, o trabalho por aplicativos funciona como um “colchão de renda”, amortecendo perdas mais severas em momentos de crise. “Se você perde o emprego, há essa saída praticamente garantida e um segmento com alta demanda”, diz.
Há, contudo, divergências sobre o impacto estrutural desse movimento. O economista Henrique Danyi, do Santander, afirma não ver evidências claras de que o mercado informal esteja absorvendo trabalhadores dispensados do segmento formal.

Segundo ele, o emprego formal tem mostrado maior resiliência, e a taxa de formalidade está em nível recorde.
Danyi observa que trabalhadores por conta própria com CNPJ devem ser considerados formais, o que desloca o debate de informalidade para mudança na composição do emprego.
Para ele, é possível que a maior flexibilidade do mercado reduza a intensidade de uma eventual piora do emprego, mas não há sinais de ausência de suavização.
No BTG Pactual, o economista-chefe Mansueto Almeida projeta que a taxa de desemprego encerre 2026 em 6%, acima dos 5,1% registrados em 2025, mas abaixo de estimativas anteriores.
Ele observa que, no ano passado, houve queda na taxa de participação da força de trabalho, de 62,6% para 62,1%, o que também influenciou o resultado da desocupação.
Para os analistas, a combinação de novas formas de ocupação, renda resiliente e menor sensibilidade aos juros pode prolongar o processo de convergência da inflação à meta, ao sustentar o consumo mesmo em um ambiente de política monetária restritiva.
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