No Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, refletimos sobre as conquistas, resistências e contribuições das mulheres ao longo da história.
Em um contexto no qual a participação feminina em espaços econômicos e sociais foi historicamente limitada, figuras como Eliza Brierley ganham significado especial, não apenas por sua atuação, mas pelo simbolismo de sua presença pioneira no cooperativismo moderno.
O surgimento do cooperativismo moderno
O cooperativismo moderno tem suas raízes na Rochdale Society of Equitable Pioneers, uma iniciativa de trabalhadores no norte da Inglaterra que se organizou em 1844 para enfrentar desigualdades econômicas em meio à Revolução Industrial.
A loja cooperativa criada por esse grupo tornou-se um modelo que influenciou cooperativas em todo o mundo e baseou princípios que atualmente orientam o movimento cooperativista global.
Esse modelo incorporava valores como adesão livre e voluntária e não discriminação, princípios que seriam posteriormente formalizados pela International Co-operative Alliance (Aliança Cooperativa Internacional).
Rochdale Society of Equitable Pioneers
A Rochdale Society of Equitable Pioneers é considerada o marco do cooperativismo moderno.
Fundada em 1844, no norte da Inglaterra, por 28 trabalhadores têxteis, a associação surgiu como resposta às desigualdades econômicas intensificadas pela Revolução Industrial.
Diante de salários baixos, jornadas exaustivas e produtos comercializados com preços abusivos e qualidade duvidosa, esses trabalhadores decidiram criar uma solução coletiva baseada em cooperação, justiça econômica e gestão democrática.
Criação de uma cooperativa de consumo
A primeira iniciativa da Rochdale Society foi a abertura de um pequeno armazém cooperativo. Nesse espaço, eram vendidos produtos básicos como farinha, açúcar, manteiga e aveia.
O diferencial estava no modelo de funcionamento:
- Venda apenas à vista, evitando o endividamento dos membros
- Garantia de qualidade e pureza dos produtos
- Preços justos e acessíveis
Esse modelo de cooperativa de consumo permitia que os próprios trabalhadores fossem donos e beneficiários do negócio.
Implantação da divisão de sobras
Outro ponto inovador foi a distribuição dos resultados financeiros. Em vez de concentrar os lucros em um proprietário, a cooperativa devolvia as sobras aos membros proporcionalmente ao volume de compras realizadas.
Esse mecanismo estabeleceu a base da participação econômica dos membros, um dos principais fundamentos do cooperativismo moderno.
Gestão democrática: um membro, um voto
A Rochdale Society estruturou sua governança com base no princípio da igualdade: cada membro tinha direito a um voto, independentemente do capital investido.
Esse modelo consolidou a gestão democrática como pilar do cooperativismo e influenciou cooperativas no mundo todo.
Investimento em educação e formação
A associação também destinava parte dos recursos à educação dos cooperados e da comunidade. O objetivo era promover formação contínua, autonomia e desenvolvimento social.
Esse compromisso com educação e informação se tornou um dos princípios permanentes do movimento cooperativista internacional.
Quem foi Eliza Brierley
Entre os membros que marcaram o início desse movimento estava Eliza Brierley, reconhecida como a primeira mulher a integrar formalmente o cooperativismo moderno.
Embora a cooperativa tenha sido inaugurada em 1844, registros históricos indicam que Eliza ingressou oficialmente como membro em 1846, pagando sua adesão e participando do movimento cooperativista em seus primeiros anos.
Esse foi um feito simbólico muito significativo para a época, uma vez que as mulheres não tinham direitos civis ou econômicos plenos no século XIX e eram frequentemente excluídas de atividades formais de tomada de decisão.
O papel das mulheres no crescimento do cooperativismo
A presença de Eliza Brierley no movimento cooperativista não foi um evento isolado, ela abriu espaço para que outras mulheres se envolvessem mais ativamente em um modelo econômico que valorizava a participação democrática.
Décadas após sua entrada na cooperativa, outras mulheres começaram a ganhar destaque dentro do movimento.
Um exemplo é Alice Acland, que em 1883 fundou a Co-operative Women’s Guild, organização dedicada a promover a participação feminina nas estruturas cooperativistas e a defender seus direitos, incluindo saúde, educação e sufrágio.
Com o tempo, o cooperativismo passou a incorporar mais amplamente os princípios de igualdade de gênero, refletindo em sua prática uma visão mais inclusiva e abrindo oportunidades para que mulheres desempenhassem papéis de liderança, gerenciamento e tomada de decisão em cooperativas ao redor do mundo.
Hoje, a participação feminina no cooperativismo continua crescendo, com mulheres ocupando posições relevantes tanto na base associativa quanto nas estruturas de gestão, ainda que desafios de equidade persistam em vários contextos.
Qual é a importância dessa história no Dia das Mulheres?
No Dia Internacional das Mulheres, revisitar a trajetória de Eliza Brierley é um convite para reconhecermos que o protagonismo feminino em espaços econômicos não começou recentemente, ele remonta a iniciativas históricas que desafiaram as normas sociais de sua época.
Ao celebrar essa história, reconhecemos que movimentos econômicos coletivos, como o cooperativismo, podem ser espaços de inclusão e transformação social.
A participação de mulheres desde os primórdios do movimento reforça que a busca por igualdade de oportunidades e participação plena nos processos de decisão é uma empreitada contínua, que ainda inspira e incentiva muitas mulheres a ocuparem seus lugares em todas as esferas da vida econômica e social.
Legado e inspiração de Eliza Brierley
O legado de Eliza Brierley transcende sua participação individual. Ele simboliza uma tradição de participação feminina significativa dentro de um modelo econômico baseado em princípios de equidade e cooperação.
Sua história inspira iniciativas atuais que promovem a presença, liderança e voz das mulheres no cooperativismo, como redes de liderança feminina que levam seu nome e buscam fortalecer a inclusão de gênero no setor cooperativo global.
No Dia Internacional das Mulheres, lembrar figuras como Eliza é uma forma de honrar a coragem e a visão de pessoas que, mesmo diante de enormes barreiras, contribuíram para construir uma sociedade mais justa, lembrando que a jornada por igualdade ainda continua, com mulheres seguindo ativas na construção do futuro das cooperativas em todo o mundo.


