A proibição das apostas de quota fixa no Brasil pode liberar parte do orçamento das famílias para consumo e pagamento de dívidas, com possíveis reflexos sobre setores como supermercados, bancos, farmácias e varejo.
Analistas ouvidos pela CNN, porém, avaliam que juros elevados, endividamento e a possibilidade de migração para plataformas clandestinas podem limitar esse efeito.
A discussão ganhou força após a publicação da Medida Provisória nº 1.394, em 25 de setembro. O texto proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A medida já está em vigor, mas precisa passar pelo Congresso Nacional para ser convertida em lei.
A expectativa de parte dos analistas é que recursos anteriormente destinados às plataformas possam retornar para outras despesas das famílias. O impacto, entretanto, dependerá de fatores como renda, nível de endividamento e destino dado ao dinheiro que deixa de ser utilizado nas apostas.
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Supermercados podem sentir efeito primeiro
Para Beto Saadia, economista-chefe da Nomus Investimentos, bancos e supermercados aparecem entre os setores que poderiam perceber inicialmente uma mudança no comportamento dos consumidores.
Na sequência, o movimento poderia alcançar farmácias e, de maneira mais gradual, segmentos como vestuário e eletrodomésticos. Entre as companhias do varejo alimentar, o economista cita Assaí e Carrefour. Casas Bahia, Renner e C&A aparecem entre as empresas que poderiam observar efeitos posteriormente.
Flávio Conde, head de renda variável da Levante Investimentos, também aponta os supermercados e o atacarejo como segmentos potencialmente mais expostos a uma eventual redistribuição dos gastos.
“A proibição das bets deve ser particularmente positiva principalmente para supermercados e atacarejo, especialmente para o Assaí”, declarou.
As avaliações representam expectativas dos analistas e não significam que haverá necessariamente aumento de receitas ou valorização das ações dessas companhias.
Bets já apareciam nos resultados das varejistas
O impacto das apostas sobre o orçamento dos consumidores já havia aparecido nas discussões de empresas do varejo durante a temporada de resultados do segundo trimestre de 2026.
Rafael Sachete, diretor financeiro do Assaí, mencionou juros, medicamentos emagrecedores e bets entre os fatores que pressionavam as vendas da rede.
Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, também abordou o assunto na apresentação dos resultados do período. Segundo ele, parte do dinheiro destinado às plataformas deixava de circular em outras modalidades de consumo.

Um relatório do BTG publicado antes da proibição estimou que o mercado regulado de apostas registrou R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos em 2025.
O indicador, conhecido como GGR, corresponde à diferença entre os valores apostados e os prêmios pagos aos jogadores. Na avaliação apresentada pelo banco, mesmo que apenas uma parcela desses recursos seja redirecionada para consumo ou pagamento de dívidas, famílias de menor renda poderiam apresentar uma mudança mais perceptível na utilização do orçamento.
Juros e endividamento continuam limitando consumo
O fim das bets, porém, não elimina outros fatores que pressionam as finanças das famílias. Saadia avalia que as apostas não explicam isoladamente o nível de endividamento da população. Para o economista, os juros elevados continuam sendo um dos principais fatores que afetam o orçamento e a capacidade de pagamento dos consumidores.
Murilo Viana, especialista em contas públicas, também considera possível uma melhora no consumo, especialmente entre famílias de menor renda.
O efeito poderia ocorrer em conjunto com outras medidas de renda adotadas pelo governo, mas o ambiente macroeconômico permanece como um limitador.
“Os juros estão ainda em patamar muito restritivo. O endividamento das famílias e empresas está bem elevado e a economia dá sinais de desaceleração”, afirmou.
Migração para apostas clandestinas é uma das incertezas
Outro ponto que dificulta estimar quanto dinheiro poderá retornar ao consumo é a possibilidade de parte dos apostadores migrar para plataformas que operem de maneira irregular.
Viana afirma que será necessário acompanhar quanto dos recursos anteriormente direcionados ao mercado regulado poderá seguir para operações clandestinas. O risco também foi considerado pelo BTG em suas estimativas sobre uma eventual recuperação do consumo.
A MP prevê mecanismos para impedir a continuidade das operações. Entre as determinações está a indisponibilização de sites e aplicativos destinados às apostas de quota fixa após o período de transição, além de restrições ao processamento de transações financeiras relacionadas à atividade.
Mudança também gera incerteza para investidores
Embora alguns segmentos possam se beneficiar de uma eventual redistribuição do orçamento familiar, analistas também acompanham os efeitos da mudança regulatória sobre o ambiente de investimentos.
A alteração ocorre depois de o Brasil ter estruturado um mercado regulado de apostas de quota fixa. A MP nº 1.394 determina a extinção das autorizações existentes e impede novas concessões, permissões e autorizações para a atividade.
O texto estabelece ainda um período de transição para encerramento das operações e devolução dos recursos mantidos pelos apostadores. Segundo o governo federal, as plataformas devem interromper suas atividades no país em outubro.
Com isso, o possível efeito positivo sobre determinados segmentos do varejo precisa ser considerado junto a outras variáveis econômicas. O volume efetivamente redirecionado ao consumo, a evolução dos juros, o endividamento das famílias e a migração para operações clandestinas serão alguns dos fatores que determinarão a dimensão desse impacto.
Foto: ChatGPT

