A expansão do uso de inteligência artificial dentro da Amazon tem gerado críticas internas entre funcionários corporativos.
Relatos apontam que a pressão para incorporar essas ferramentas no cotidiano de trabalho tem aumentado a carga de tarefas e ampliado mecanismos de monitoramento dentro da empresa.
O movimento ocorre em um contexto de mudanças na estrutura da companhia. Nos últimos quatro meses, a Amazon demitiu cerca de 30 mil funcionários, o equivalente a quase 10% da força de trabalho corporativa, estimada em aproximadamente 350 mil pessoas.
Ao mesmo tempo, a empresa informou que pretende investir cerca de US$ 200 bilhões em infraestrutura de IA neste ano, além de anunciar um investimento de US$ 50 bilhões na OpenAI.
Funcionários ouvidos pelo The Guardian afirmam que a empresa passou a incentivar o uso de inteligência artificial em diferentes tarefas.
Leia mais:
- Funcionários da Amazon relatam aumento de pressão e monitoramento com adoção de IA
- Juros elevados e entraves estruturais limitam investimentos no Brasil, avaliam CEOs
- Cooperativas mineiras ampliam projetos ambientais e sociais após formação internacional
- Tecnologias para investir em 2026: guia estratégico para empresas que querem crescer com inteligência
- Cooperativa tem CNPJ? Entenda como funciona o registro e por que ele é obrigatório
Uma desenvolvedora de software de Nova York relatou que, quando entrou na companhia há dois anos, seu trabalho era majoritariamente escrever código. Atualmente, boa parte do tempo é dedicada a revisar ou corrigir conteúdos gerados por ferramentas de IA.
Em resposta, a porta-voz da Amazon, Montana MacLachlan, afirmou que a empresa possui centenas de milhares de funcionários corporativos em diversas funções e que as equipes utilizam a inteligência artificial de maneiras diferentes.
Segundo ela, embora as experiências variem, a companhia afirma ouvir da maioria das equipes que as ferramentas geram valor nas atividades do dia a dia.
Funcionários também relatam a existência de diversas ferramentas internas baseadas em IA, muitas delas desenvolvidas durante hackathons promovidos pela empresa.
Esses eventos costumam ocorrer trimestralmente e incentivam a criação de novos projetos, que recentemente passaram a focar em IA generativa e produtividade de desenvolvedores.
De acordo com relatos internos, algumas dessas ferramentas são distribuídas para testes dentro das equipes, que posteriormente precisam responder questionários sobre o desempenho dos sistemas.
Para parte dos funcionários, esse processo pode aumentar o volume de trabalho, já que os resultados gerados pela IA exigem revisão cuidadosa.
Um engenheiro de software ouvido pela reportagem afirmou que, em alguns casos, o ciclo de desenvolvimento pode se tornar mais longo, justamente pela necessidade de validar o material produzido automaticamente.
O uso dessas ferramentas também foi associado a alguns incidentes técnicos. Segundo reportagem do Financial Times, a Amazon registrou pelo menos duas interrupções de sistemas relacionadas a ferramentas internas de IA.
Em um episódio ocorrido em dezembro, um sistema voltado ao cliente ficou indisponível por cerca de 13 horas após engenheiros permitirem que uma ferramenta de IA realizasse determinadas alterações. A Amazon informou que a falha foi causada por um funcionário, e não diretamente pela tecnologia.
Além das questões relacionadas à produtividade, funcionários relatam que o avanço da IA dentro da empresa também aumentou a percepção de monitoramento no ambiente de trabalho.
Um sistema interno chamado Amazon Connections apresenta regularmente perguntas aos funcionários no início do expediente, solicitando feedback sobre diferentes aspectos do trabalho.
Nos últimos meses, parte dessas perguntas passou a abordar diretamente o uso de ferramentas de inteligência artificial.
Segundo relatos, gerentes também têm acesso a painéis internos que mostram o uso dessas ferramentas pelas equipes, incluindo quais sistemas estão sendo utilizados e com que frequência.
Outro painel interno, mencionado na reportagem do The Guardian, permite acompanhar indicadores como adoção, engajamento e intensidade de uso de ferramentas de IA generativa.
Em alguns casos, gestores definem metas para que pelo menos 80% da equipe utilize essas ferramentas semanalmente.
A porta-voz da Amazon afirmou que o objetivo é compreender quais tecnologias estão sendo usadas pelas equipes e se elas funcionam adequadamente ou precisam ser aprimoradas.
Para especialistas, a expansão de sistemas baseados em inteligência artificial dentro das empresas pode ampliar mecanismos de monitoramento no ambiente corporativo.
Segundo Nick Srnicek, professor sênior de economia digital no King’s College London e autor do livro Platform Capitalism, a implantação em larga escala dessas tecnologias tende a aumentar a coleta de dados sobre atividades dos funcionários.
De acordo com ele, sistemas de IA dependem de informações detalhadas sobre fluxos de trabalho e rotinas internas, o que pode resultar em formas mais amplas de acompanhamento das atividades profissionais dentro das organizações.
Foto: Freepik

