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Tecnologia com proprósito:IA

Tecnologia com propósito: como a IA generativa pode fortalecer o cooperativismo

  • Marlon Barcelos
  • 19 de janeiro de 2026

A inteligência artificial generativa deixou de ser um experimento restrito a laboratórios e passou a integrar, de forma definitiva, a rotina das empresas em escala global.

Esse movimento também alcança o cooperativismo e seu ecossistema de negócios, que começa a incorporar a tecnologia como ferramenta estratégica para ampliar transparência, eficiência e participação.

Pesquisa da McKinsey & Company indica que 78% das organizações no mundo já utilizam inteligência artificial em ao menos uma função em 2025. O avanço confirma que a IA deixou de ser promessa para se tornar infraestrutura essencial nas operações empresariais, inclusive em modelos baseados na cooperação.

Apesar da ampla disseminação de informações sobre IA generativa, ainda persistem dúvidas sobre como a tecnologia pode gerar impacto positivo real, especialmente em um setor que se orienta por princípios como intercooperação, governança ética, participação democrática, inclusão e valorização das pessoas.

Para o jornalista e pesquisador em inteligência artificial Ben-Hur Correia, o primeiro passo é compreender o papel da IA generativa como mediadora de conhecimento.

“Ela é o maior tradutor que já inventamos. Um dos grandes entraves da democracia em qualquer organização é a assimetria de informação. Relatórios complexos e balanços técnicos afastam o cooperado do processo decisório. A IA consegue transformar esse conteúdo em explicações simples, em texto ou áudio, adaptadas à realidade de cada pessoa”, explica.

Segundo ele, quando a informação se torna compreensível, a participação deixa de ser apenas formal. “A democracia cooperativa só funciona quando as pessoas entendem o que está sendo decidido. A IA reduz drasticamente essa distância entre quem produz a informação e quem precisa usá-la para deliberar”, afirma.

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No campo da intercooperação, a tecnologia pode atuar como uma camada de inteligência coletiva. “Hoje, muitas cooperativas têm dados valiosos, mas isolados. A IA generativa pode identificar sinergias e oportunidades entre cooperativas, sem expor dados sensíveis. Isso cria uma inteligência compartilhada, alinhada ao espírito cooperativista”, avalia Ben-Hur.

A mesma leitura é feita pela AI Fashion Architect Amanda Momente. Para ela, a IA funciona como um tradutor institucional. “Documentos que parecem escritos em outra língua se tornam acessíveis. Isso melhora a transparência e coloca todos na mesma página”, diz.

Amanda também destaca o uso da tecnologia em processos participativos. “A IA consegue analisar centenas de opiniões, identificar padrões e mostrar pontos em comum, sem apagar a diversidade. É como uma grande caixa de sugestões inteligente”, observa.

No cooperativismo, aplicações práticas da IA generativa já começam a se consolidar, especialmente nos ramos de crédito, agro, saúde e consumo. Ben-Hur aponta uma mudança estrutural.

“Estamos saindo da era da segmentação para a hiperpersonalização. No crédito, a IA não olha apenas o score, mas analisa o contexto de vida do cooperado, prevê riscos e sugere soluções no momento certo”, afirma.

Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria, destaca que, nas cooperativas de crédito, a tecnologia já impacta o relacionamento.

“Ferramentas de atendimento baseadas em IA reduzem filas, agilizam respostas e melhoram a experiência do cooperado. A automação de tarefas administrativas libera as equipes para o relacionamento humano e a construção de confiança”, explica.

No agro, os efeitos são ainda mais diretos. Ben-Hur descreve o que chama de “agrônomo de bolso”. “O produtor envia uma foto de uma praga, a IA cruza dados climáticos e sugere a intervenção adequada. Isso reduz custos, evita desperdício e melhora a produtividade”, afirma.

Zarvos amplia a análise ao mencionar simulações avançadas. “A IA permite modelar rotação de culturas, prever comportamento do solo e planejar safras com base em cenários climáticos locais. Isso empodera o pequeno produtor e reduz a assimetria de informação no campo”, diz.

Na saúde cooperativa, a tecnologia surge como suporte, não substituição. “A IA pode organizar prontuários e fazer triagens iniciais, devolvendo tempo ao profissional para aquilo que nenhuma máquina faz: acolher, escutar e cuidar”, destaca Ben-Hur. Zarvos concorda: “O cuidado humano é insubstituível. A IA deve ser aliada, não protagonista”.

Apesar das inquietações sobre automação, os especialistas são unânimes ao afirmar que o protagonismo humano se torna ainda mais relevante. Ben-Hur defende o conceito de liderança algorítmica.

“A IA assume tarefas repetitivas. O humano sobe um degrau e passa a focar em estratégia, empatia e visão sistêmica. Quem souber orquestrar a IA será o profissional mais valioso”, afirma.

Amanda Momente traduz a ideia de forma simples. “É como uma máquina de lavar: não substitui você, mas libera tempo para coisas mais importantes. Para isso, é preciso ensinar o básico de tecnologia e deixar claro que decisões seguem humanas”, diz.

Para Ben-Hur, a competência central do futuro é a fluência crítica em IA. “O profissional precisa saber formular perguntas, validar respostas e julgar se o uso é ético e coerente com os valores da cooperativa. A IA pode errar. O senso crítico humano é indispensável”, alerta.

Zarvos complementa que a adoção da tecnologia exige letramento digital contínuo. “Mais do que usar ferramentas, é preciso entender como a IA aprende e quais são seus limites. Sem isso, há dependência tecnológica”, afirma.

Diante dos riscos, a governança se impõe como eixo central. “A regra de ouro é manter o humano no comando. A IA sugere; o humano decide”, afirma Ben-Hur.

Zarvos defende a criação de comitês participativos de IA. “Não é apenas uma decisão técnica, mas ética e política. As cooperativas têm condições de liderar esse processo com responsabilidade”, avalia.

Os desafios, segundo os especialistas, começam na base. “Não adianta ter IA avançada se os dados estão desorganizados”, lembra Ben-Hur. O modelo híbrido, uso de plataformas prontas conectadas a bases próprias e seguras, surge como alternativa mais adequada.

A inclusão digital aparece como compromisso central. “A tecnologia pode ampliar desigualdades se não houver cuidado. A alfabetização em IA precisa ser contínua e acessível”, conclui Zarvos.

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