O avanço da reciclagem no Brasil vem fortalecendo o papel das cooperativas na economia circular, na inclusão produtiva e na geração de renda para milhares de trabalhadores.
Neste cenário, organizações ligadas à coleta e reaproveitamento de resíduos passaram a ampliar presença em municípios brasileiros e ganhar espaço dentro das discussões sobre sustentabilidade e desenvolvimento social.
Celebrado em 17 de maio, o Dia Mundial da Reciclagem também reforça a importância dessas iniciativas para ampliar a destinação correta de resíduos e consolidar políticas ligadas à coleta seletiva e à logística reversa.
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Dados mais recentes do Anuário do Cooperativismo apontam que cooperativas e associações de catadores atuaram em mais de 1,7 mil municípios brasileiros em 2024.
No período, cerca de 1,7 milhão de toneladas de resíduos foram encaminhadas para reciclagem, movimentando aproximadamente R$ 1,36 bilhão na comercialização de materiais recicláveis.
Segundo o levantamento, a atividade também contribuiu para evitar a emissão de aproximadamente 1,045 milhão de toneladas de CO₂.
Reciclagem transforma realidades e amplia inclusão social
Além do impacto ambiental, o cooperativismo de reciclagem vem mudando a realidade de famílias que encontraram no trabalho coletivo uma alternativa de renda e reorganização social.
Em Alagoas, cooperativas do setor passaram a reunir trabalhadores que antes atuavam em lixões e hoje desenvolvem atividades em estruturas organizadas, com melhores condições de trabalho e maior estabilidade financeira.
Um desses exemplos é o de Marciel da Silva, cooperado da Coopmar, em Marechal Deodoro. Segundo ele, a cooperativa ampliou as perspectivas de futuro e trouxe mais dignidade ao cotidiano dos trabalhadores.

“Eu saí do lixão com sonhos pequenos, mas a cooperativa me mostrou que eu podia ter dignidade, crescer e acreditar em um futuro melhor”, afirmou.
A trajetória de José Roberto, atual presidente da organização, também acompanha esse movimento de transformação. Ele relata que o ambiente colaborativo criado dentro da cooperativa ajudou na reconstrução de sua vida pessoal e profissional.
“Antes eu não via muita saída, mas foi aqui que comecei a reconstruir minha vida e acreditar que eu podia ir além”, destacou.
Em São Paulo, uma cooperativa da Zona Leste e de São Vicente também ganhou destaque pelo impacto social alcançado ao longo dos últimos anos. A organização desenvolve projetos voltados ao acolhimento e reintegração de pessoas em situação de rua por meio da reciclagem.
Segundo a cooperativa, o programa alcançou índice de recuperação de 80% entre os participantes atendidos. O trabalho recebeu reconhecimento internacional da Organização das Nações Unidas (ONU).
A organização também ampliou significativamente o volume de resíduos processados, passando de cerca de 80 toneladas para 198 toneladas de materiais recicláveis destinados corretamente.
Avanços legais fortalecem o setor
Nos últimos anos, o segmento também passou por mudanças regulatórias consideradas importantes para ampliar a competitividade e a sustentabilidade financeira das cooperativas.
Entre os principais avanços está a Lei nº 15.088, sancionada em janeiro de 2025, que proibiu a importação de resíduos sólidos e rejeitos no país. A medida reduziu a concorrência com materiais importados e fortaleceu a participação das cooperativas na cadeia nacional de reciclagem.
Segundo dados do setor, a legislação ajudou a proteger a renda de mais de 800 mil catadores e reduziu em cerca de 90% as importações concorrentes.
Outro movimento importante foi a regulamentação da Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR), que ampliou incentivos fiscais para empresas e pessoas físicas que apoiam projetos ligados ao setor.
Os recursos podem ser direcionados para:
- capacitação técnica;
- compra de equipamentos;
- fortalecimento operacional das cooperativas;
- assessoria especializada;
- ampliação das redes de comercialização.
O setor também avançou na área tributária após a retomada da isenção de PIS/Cofins para cooperativas de reciclagem em 2025. A medida foi considerada estratégica para reduzir impactos financeiros sobre as organizações.
Para a presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, a decisão reconhece a relevância econômica e social do segmento.
“Trata-se de uma medida justa, que corrige um desequilíbrio e valoriza o trabalho de milhares de brasileiros que contribuem diariamente para a sustentabilidade ambiental e a inclusão produtiva”, afirmou.
Capacitação e infraestrutura ampliam produtividade
Programas de qualificação e investimento em infraestrutura também vêm impulsionando o crescimento das cooperativas.
No Rio Grande do Sul, iniciativas voltadas ao fortalecimento da cadeia da reciclagem contribuíram para ampliar produtividade e renda média dos cooperados.
Dados do Programa Ser+ mostram que sete unidades de triagem gaúchas foram responsáveis pela gestão de mais de 3 mil toneladas de resíduos em 2025, volume 11% superior ao registrado no ano anterior.
No mesmo período, a renda média dos trabalhadores vinculados às cooperativas cresceu 31%.
Criado em 2009, o programa já impactou diretamente mais de 600 trabalhadores ligados a 20 cooperativas gaúchas, além de beneficiar indiretamente mais de duas mil pessoas no estado.
O avanço dessas iniciativas acompanha um cenário de fortalecimento gradual da economia circular no país, impulsionado pelo crescimento da demanda por soluções sustentáveis e pela ampliação de políticas públicas voltadas à gestão de resíduos.
Foto: Magnific

