Crédito, tecnologia, organização produtiva, competitividade e adaptação climática estiveram entre os principais temas do primeiro dia do GAFFFF 2026, realizado nesta quinta-feira (1º), em São Paulo.
Os debates mostraram um agronegócio que busca transformar escala em eficiência enquanto enfrenta juros elevados, novas exigências internacionais e diferenças no acesso a capital e tecnologia.
Realizado no Nubank Parque, o Global Agribusiness Festival reúne representantes de diferentes elos da cadeia produtiva para discutir os movimentos que devem influenciar o setor nos próximos anos.
A programação de 2026 conta com mais de 100 palestrantes distribuídos em seis palcos, combinando discussões técnicas, negócios, cultura e experiências relacionadas ao agro.
A MundoCoop acompanhou a abertura do evento e reuniu alguns dos principais pontos apresentados por especialistas, lideranças e representantes do setor produtivo.
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Crédito ganha peso nas decisões do campo
Em um ambiente de juros elevados, aumento da inadimplência e maior necessidade de capital de giro, o financiamento da produção ocupou parte relevante das discussões.
Um dos painéis sobre distribuição de insumos mostrou que análise de risco, capacidade de pagamento e integração entre áreas comerciais e financeiras estão ganhando espaço nas operações.
O movimento também acompanha mudanças no papel dos distribuidores. Além da comercialização de insumos, essas empresas ampliam a atuação em crédito, serviços e assistência ao produtor. Ao mesmo tempo, bancos, fintechs, tradings e cooperativas avançam na relação direta com o campo.
A relação entre financiamento e produção apareceu ainda nas discussões sobre segurança alimentar. Representantes de instituições financeiras e organismos internacionais destacaram a combinação entre crédito, seguro, assistência técnica, infraestrutura e acesso a mercados como elementos relacionados à capacidade de ampliar a produção de alimentos.
Para produtores de menor porte, esses instrumentos ganham relevância diante das dificuldades para alcançar escala e absorver riscos.
Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, relacionou esse cenário ao papel das cooperativas. Durante sua participação, destacou a organização coletiva, o acesso a recursos e a assistência como caminhos para ampliar as condições de permanência dos pequenos produtores na atividade e sua chegada aos mercados.

Cooperativas discutem governança e diferentes escalas de produção
O cooperativismo ganhou um espaço específico no painel “Cooperativismo Agroindustrial: Estratégias para um Agro Forte”, mediado por João José Prieto, gerente Técnico e Econômico do Sistema OCB.
O encontro reuniu Fernando Degobbi, presidente executivo da Coopercitrus, e Marcos Farhat, diretor-presidente da Coplacana, para discutir as transformações enfrentadas pelas cooperativas agroindustriais.
Entre os temas estiveram clima, gestão e estratégias para o desenvolvimento do setor. As discussões também abordaram as diferenças entre pequenos, médios e grandes produtores, que possuem níveis distintos de acesso a capital, tecnologia, infraestrutura e mercados.
Nesse cenário, governança e profissionalização aparecem relacionadas à capacidade das cooperativas de administrar estruturas cada vez mais complexas, realizar investimentos e atender produtores com necessidades diferentes.
Os números apresentados durante o evento ajudam a dimensionar essa atuação. O cooperativismo agropecuário reúne 1.254 cooperativas, 1,13 milhão de cooperados e 277 mil empregos diretos.
Em 2025, o ramo registrou R$ 487,3 bilhões em ingressos, correspondentes a 57,4% da movimentação econômica do cooperativismo brasileiro.
Tecnologia passa a ser avaliada pelo retorno no campo
A tecnologia ocupou outra frente importante da programação. Os debates mostraram uma mudança de foco: além da quantidade de ferramentas disponíveis, produtores e empresas passam a observar com maior atenção os resultados obtidos com sua utilização.
Agricultura de precisão, telemetria, visão computacional e inteligência artificial foram relacionadas à redução de custos, produtividade e utilização dos ativos.
Durante o evento, a SLC Agrícola apresentou que cada R$ 1 aplicado em determinadas ferramentas tecnológicas gera R$ 12,50 de retorno.
As discussões também apontaram uma mudança no perfil dos produtores, com novas gerações buscando soluções mais simples de utilizar e resultados que possam ser identificados de maneira objetiva.
Inteligência artificial amplia importância da gestão de dados
O aumento da quantidade de informações disponíveis nas propriedades cria outro desafio: transformar dados em decisões aplicáveis ao negócio.
Nos painéis sobre inteligência artificial, especialistas destacaram que a coleta de informações, isoladamente, não é suficiente para gerar resultados.
Organização das bases de dados, conhecimento da operação e definição dos problemas que precisam ser resolvidos aparecem como etapas necessárias para utilizar ferramentas de IA de maneira prática.
A tecnologia também foi relacionada a decisões logísticas e industriais, especialmente em cadeias que avançam na agregação de valor e na transformação de produtos agropecuários.
Mercado internacional amplia exigências sobre o agro
Fora das propriedades, os debates mostraram que a competitividade brasileira passa cada vez mais por questões geopolíticas, sanitárias, ambientais e comerciais.
No mercado de grãos, rastreabilidade e critérios ambientais apareceram entre as exigências crescentes de compradores internacionais.
O desafio apresentado durante o evento está em incorporar esses requisitos sem comprometer a competitividade das propriedades, especialmente quando os custos adicionais não são necessariamente remunerados pelo mercado.
A agregação de valor também apareceu como alternativa para ampliar as fontes de receita da cadeia. Etanol de milho, proteínas, rações e outros produtos derivados foram citados dentro de um movimento de expansão da agroindustrialização.
Clima passa a interferir em crédito e planejamento
As mudanças climáticas completaram o conjunto de temas presentes no primeiro dia do GAFFFF 2026.
Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex-alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, chamou atenção para os riscos de cadeias alimentares excessivamente dependentes de longas rotas comerciais e para a necessidade de ampliar a capacidade de adaptação dos sistemas produtivos.
Os debates mostraram ainda que questões ambientais passam a ter efeitos sobre diferentes áreas da atividade, incluindo financiamento, seguro, planejamento da produção e acesso aos mercados.
Robinson também relacionou as transformações do setor à maior participação das novas gerações e das mulheres, em um ano declarado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional da Mulher Agricultora.
O primeiro dia do GAFFFF 2026 mostrou, assim, um setor em que crédito, tecnologia, governança, organização produtiva e adaptação às novas exigências do mercado estão cada vez mais conectados. As discussões continuam ao longo da programação do festival em São Paulo.
Foto:ChatGPT

