O ano de 2026 deve colocar a política monetária brasileira diante de um dilema delicado: controlar a inflação em um cenário de mercado de trabalho aquecido e consumo elevado, sem comprometer de forma excessiva o crescimento econômico.
Com o desemprego em mínimas históricas e a renda média do trabalhador girando em torno de R$ 3.500, segundo a PNAD Contínua do IBGE, o aumento do poder de compra vem se traduzindo diretamente em maior consumo. Esse movimento, embora positivo do ponto de vista social, exerce pressão adicional sobre os preços.
Segundo Monteiro, o padrão de consumo no Brasil intensifica esse efeito. “Quando a renda sobe um pouco, isso vira consumo quase imediato”, observa.
A taxa média de poupança do brasileiro, em torno de 17%, é baixa quando comparada a países como China e Japão, o que faz com que grande parte da renda mensal seja rapidamente absorvida pelo mercado.
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Esse comportamento, explica o analista, ajuda a sustentar a demanda aquecida e dificulta o processo de desinflação. “O aumento de renda acaba alimentando o consumo, e isso tende a pressionar a inflação”, afirma.
Diante desse cenário, o principal desafio do Banco Central será conduzir a inflação de volta ao centro da meta de 3%. Atualmente, os índices seguem próximos de 4,5%, encostando no limite superior da banda de tolerância.
Para Monteiro, esse contexto deve manter os juros em níveis elevados por mais tempo, mesmo que haja espaço para cortes graduais ao longo do próximo ano.
Outro ponto central da análise é entender a natureza do aquecimento do mercado de trabalho. A dúvida, segundo o analista, é se o nível atual de emprego reflete um movimento conjuntural ou uma mudança estrutural da economia brasileira.
“O que precisa ser respondido é se esse mercado de trabalho tão apertado é algo passageiro ou se houve uma transformação estrutural”, destaca.
Entre os fatores que podem ter alterado a dinâmica do emprego estão a reforma trabalhista, a expansão dos serviços por aplicativo e o avanço do trabalho remoto.
Compreender quais dessas mudanças são permanentes é fundamental para a calibragem da política monetária.
O Banco Central, avalia Monteiro, ainda busca identificar quais componentes do mercado de trabalho respondem aos juros e quais tendem a permanecer aquecidos independentemente do nível da Selic.
A resposta a esse diagnóstico será decisiva para definir a trajetória dos juros em 2026 e para o equilíbrio entre controle da inflação e sustentação do crescimento econômico.
Foto: Ibrahim Boran/Unsplash

