Os dados mais recentes da economia norte-americana indicam que a inteligência artificial começa a gerar efeitos mensuráveis na produtividade, encerrando um período em que a tecnologia avançava sem impacto claro nos indicadores macroeconômicos.
Segundo análise publicada no Financial Times por Erik Brynjolfsson, diretor do Digital Economy Lab de Stanford, a produtividade dos Estados Unidos cresceu cerca de 2,7% em 2025, quase o dobro da média de 1,4% registrada na última década.
A leitura ganha consistência quando combinada com outros indicadores. A revisão do Bureau of Labor Statistics ajustou para baixo o crescimento do emprego em aproximadamente 403 mil vagas, enquanto o PIB real manteve expansão anualizada de 3,7% no quarto trimestre, de acordo com o Bureau of Economic Analysis.
Leia mais:
- Drone com inteligência artificial amplia capacidade de localizar desaparecidos em áreas remotas
- Avanço da inteligência artificial já impacta produtividade e reorganiza cadeias globais
- Cooperativismo avança no Brasil incentivado por mudanças no comportamento do consumidor financeiro
- Meta e YouTube são responsabilizados por danos ligados ao uso de redes sociais
- Instabilidade no Pix gera pico de reclamações no início da tarde
A manutenção do nível de produção com menor volume de trabalho sugere ganhos efetivos de produtividade. O avanço da inteligência artificial também se reflete na pressão sobre a cadeia de suprimentos de tecnologia.
A demanda por chips de memória, especialmente os modelos de alta largura de banda (HBM), tem provocado aumentos expressivos de preços e restrições de oferta.
Relatórios de mercado indicam que determinados tipos de DRAM registraram alta superior a 70% em curto período.
Ao mesmo tempo, fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron têm redirecionado a produção para aplicações em IA, o que altera a dinâmica de setores como o de smartphones, que enfrenta projeção de retração de 12,9% em 2026, segundo a IDC.
A concentração da produção de memória avançada em poucas empresas, majoritariamente localizadas em países aliados aos Estados Unidos, reforça o caráter estratégico desses insumos no atual cenário tecnológico.

O movimento de consolidação da IA também se manifesta na escala dos investimentos corporativos. Estimativas apontam que grandes empresas de tecnologia podem destinar mais de US$ 700 bilhões em capital em 2026 para infraestrutura ligada à inteligência artificial, incluindo data centers, chips e energia.
A Nvidia, por exemplo, projeta um mercado de até US$ 1 trilhão em data centers no período entre 2025 e 2027. Paralelamente, empresas como Meta, Amazon e Microsoft ampliam acordos de longo prazo para fornecimento de chips e energia, incluindo contratos de grande escala em geração nuclear.
Esse ciclo de investimentos também impulsiona a expansão industrial nos Estados Unidos, com projetos que somam centenas de bilhões de dólares em fábricas de semicondutores e infraestrutura tecnológica.
A competição global em inteligência artificial tem se concentrado na infraestrutura que sustenta o desenvolvimento dos sistemas, como fabricação de chips, memória e energia.
Empresas como TSMC, responsável pela produção de chips de ponta, operam com alta capacidade e margens elevadas, enquanto companhias como Broadcom e AMD ampliam sua participação no desenvolvimento de soluções específicas para diferentes etapas do processamento de IA.
Ao mesmo tempo, a disputa geopolítica envolve restrições comerciais e controle de exportações, especialmente no acesso a componentes críticos, o que influencia a capacidade de diferentes países de escalar seus sistemas tecnológicos.
Apesar da expansão global da inteligência artificial, os ganhos econômicos tendem a se concentrar nas regiões que controlam as etapas mais avançadas da cadeia produtiva.
Países que atuam principalmente na produção de commodities ou em etapas iniciais da cadeia tecnológica enfrentam dificuldades para capturar valor nessa nova fase.
A ausência de infraestrutura em semicondutores, memória e energia voltada à tecnologia limita a participação nesses ganhos.
Ao mesmo tempo, a reorganização industrial em torno da IA tem gerado efeitos concretos no mercado de trabalho em países centrais, com expansão de investimentos em manufatura e construção de data centers.
A combinação entre ganhos de produtividade, escassez de insumos estratégicos e aumento dos investimentos indica uma mudança estrutural na economia global impulsionada pela inteligência artificial.
O avanço da tecnologia passa a influenciar não apenas processos produtivos, mas também a organização das cadeias de valor, a distribuição de poder econômico e as estratégias industriais dos países.
Nesse cenário, a velocidade de adaptação e a capacidade de integrar infraestrutura, tecnologia e capital tendem a definir o posicionamento das economias na próxima fase de transformação digital.
Foto: Freepik

