O avanço dos custos operacionais, a dificuldade de acesso a crédito e a pressão sobre caminhoneiros autônomos têm ampliado o espaço das cooperativas de transporte no Brasil.
Em um mercado ainda marcado pela fragmentação e pela forte presença de intermediários, o modelo cooperativista vem sendo utilizado como alternativa para organizar operações, reduzir despesas e ampliar a capacidade competitiva dos profissionais do setor.
Hoje, o país possui 752 cooperativas de transporte em atividade, reunindo mais de 114 mil cooperados. Juntas, essas organizações também são responsáveis pela geração de milhares de empregos diretos ligados ao transporte de cargas e passageiros.
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O setor rodoviário segue como a principal base logística brasileira. Mais de 60% de tudo que circula pelo país depende das estradas, cenário que mantém elevada a dependência de pequenos operadores e transportadores autônomos.
Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Brasil possui quase 1 milhão de transportadores autônomos cadastrados, além de mais de 270 mil pequenas empresas ligadas ao segmento. Para representantes do cooperativismo, esse ambiente cria espaço para modelos coletivos de organização.
O coordenador nacional do Conselho Consultivo do Ramo Transporte do Sistema OCB e presidente da CNTCoop, Evaldo Moreira Matos, avalia que o momento atual evidencia a necessidade de fortalecimento institucional do setor.
Na avaliação dele, as cooperativas conseguem oferecer mais estabilidade aos profissionais justamente por ampliarem acesso a serviços, crédito e negociação coletiva.
Além da organização operacional, o cooperativismo também vem sendo utilizado para reduzir impactos financeiros sobre os transportadores. Compras coletivas de pneus, combustíveis e seguros passaram a integrar a estratégia de diversas cooperativas, ampliando ganho de escala e diminuindo custos.
Outro movimento em desenvolvimento envolve a criação de uma plataforma nacional de fretes voltada à conexão entre cooperativas. A proposta busca reduzir o chamado “quilômetro vazio”, situação em que caminhões retornam sem carga após entregas, elevando despesas operacionais e diminuindo rentabilidade.

O avanço do comércio eletrônico também alterou a dinâmica do transporte rodoviário nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que a demanda logística cresceu, o setor passou a enfrentar redução da mão de obra disponível.
Levantamento da consultoria Ilos, baseado em dados da Senatran, aponta queda de cerca de 20% no número de profissionais do transporte na última década.
Para representantes do setor, o cooperativismo pode funcionar como mecanismo de retenção desses trabalhadores ao ampliar previsibilidade financeira e melhorar condições de atuação.
A renovação da frota aparece entre os principais diferenciais apontados pelas cooperativas. Segundo o ramo transporte do Sistema OCB, os veículos utilizados pelas cooperativas possuem média de idade entre sete e oito anos, abaixo da média nacional registrada no transporte rodoviário brasileiro.
A intercooperação também tem ampliado a atuação do segmento. Dados do AnuárioCoop 2025 mostram que parte significativa das cooperativas de transporte já mantém relações comerciais com cooperativas financeiras, de saúde e de trabalho.
Um dos exemplos citados pelo setor envolve uma parceria entre Coopmetro, Aurora Coop e Sicoob para financiamento de caminhões destinados a profissionais que não conseguiam acesso ao crédito tradicional. Segundo o setor, o projeto já ultrapassou a marca de 300 veículos adquiridos nesse formato.
Além da pauta econômica, a agenda ambiental passou a ganhar peso dentro do transporte cooperativo. Cooperativas vêm ampliando investimentos em eficiência energética, renovação de frota e alternativas de redução de emissões.
O Sistema OCB também passou a apoiar cooperativas na elaboração de inventários de gases de efeito estufa, em preparação para futuras exigências ligadas ao mercado regulado de carbono previsto para entrar em vigor nos próximos anos.
Foto: Magnific

