As importações brasileiras de trigo recuaram 20,7% em agosto na comparação com julho, acompanhando o avanço da colheita nacional. A redução, porém, é considerada pontual.
A menor área plantada, problemas climáticos e limitações na qualidade do cereal produzido no país podem elevar a necessidade de compras externas na temporada 2026/27, com estimativas que chegam a até 9 milhões de toneladas.
Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que o Brasil importou 515,6 mil toneladas de trigo em agosto, ante 650,5 mil toneladas em julho.
Apesar da queda mensal, as compras permaneceram acima do registrado no mesmo período do ano passado. Em agosto de 2025, foram importadas 492 mil toneladas, o que representa uma alta de 4,8% na comparação anual.
Segundo Lucilio Alves, pesquisador do Cepea e professor da Esalq/USP, a redução observada no último mês acompanha a entrada da produção brasileira no mercado.
“Esse é apenas um ajuste característico do período, porque agora a gente tem a entrada da safra brasileira”, explica.
No Paraná, pouco mais de 20% das áreas já foram colhidas, segundo o Cepea. Os trabalhos também devem avançar em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
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Brasil pode precisar importar até 9 milhões de toneladas
Mesmo com o recuo registrado em agosto, a disponibilidade doméstica de trigo de melhor qualidade permanece limitada.
No ano comercial encerrado em agosto, o Brasil importou 6,15 milhões de toneladas de trigo em grão, além de aproximadamente 340 mil toneladas de farinha. Somadas, as compras externas ficaram próximas de 6,5 milhões de toneladas.
Para a temporada 2026/27, iniciada em setembro, a expectativa é de uma dependência maior do mercado internacional.
Élcio Bento, especialista em mercado do trigo e analista de inteligência da Safras & Mercado, estima uma necessidade de importação entre 8,5 milhões e 9 milhões de toneladas.
“A estimativa é de uma necessidade entre 8,5 milhões a 9 milhões de toneladas”, afirma.
Caso o volume se confirme, o país poderá alcançar um recorde nas importações do cereal. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) trabalha com uma projeção menor.
O levantamento mais recente citado aponta para 7,103 milhões de toneladas importadas, alta de 4% em relação à estimativa anterior. Mesmo nesse cenário, o volume seria o maior registrado pelo Brasil nas últimas duas décadas.

Área plantada com trigo recua 20%
A maior necessidade de importações está relacionada também à redução da produção doméstica. A área destinada ao trigo caiu cerca de 20% na safra atual, movimento associado aos preços baixos registrados no início do ano e ao risco de perdas climáticas.
Segundo Alves, o cereal é particularmente vulnerável às condições meteorológicas e pode sofrer perdas rapidamente diante de eventos como chuvas intensas. A combinação entre margens menores e riscos para a produção levou parte dos agricultores a reduzir o espaço destinado à cultura.
Com a retração da área, a expectativa apresentada por Bento é de uma produção nacional próxima de 6 milhões de toneladas, ante cerca de 8 milhões de toneladas na temporada anterior.
Qualidade da safra aumenta preocupação
Além do volume produzido, a qualidade do trigo colhido é outro fator acompanhado pelo mercado. No Cerrado, especialmente em Minas Gerais e Goiás, a colheita das lavouras de sequeiro avançou, mas os primeiros resultados indicaram problemas de qualidade após períodos de calor e estiagem durante o desenvolvimento da cultura.
A expectativa de melhor desempenho na região está concentrada nas áreas irrigadas. No Paraná, que juntamente com o Rio Grande do Sul responde por aproximadamente 90% da produção brasileira, a colheita também começa a avançar, mas enfrenta dificuldades.
Segundo Bento, lavouras do Sul foram prejudicadas pela brusone, doença fúngica favorecida por determinadas condições climáticas, além das chuvas sobre áreas que já estavam próximas do momento de colheita.
“Chuva na lavoura de trigo pronto para colheita é perda de qualidade”, afirma o especialista.
Mercado acompanha risco de repetição de perdas
A preocupação aumenta diante da possibilidade de um cenário semelhante ao registrado na temporada 2023/24. Naquele ciclo, sob influência do El Niño, o trigo produzido no Rio Grande do Sul sofreu forte perda de qualidade. A produção brasileira, inicialmente projetada em 11,5 milhões de toneladas, terminou em aproximadamente 8,85 milhões de toneladas.
Desse volume, segundo Bento, apenas cerca de 5,5 milhões de toneladas apresentaram qualidade adequada para produção de farinha.
O especialista avalia que o El Niño desta temporada pode ser mais intenso que o registrado naquele período. Com uma área plantada menor e incertezas relacionadas ao clima e à qualidade do cereal, a redução das importações observada em agosto não indica uma diminuição estrutural da dependência brasileira.
A tendência apresentada pelos especialistas é oposta: o país poderá precisar ampliar significativamente as compras internacionais de trigo durante a temporada 2026/27 para complementar a oferta doméstica, especialmente de produto com qualidade adequada para moagem.
Foto: ChatGPT

