Finlândia tem mais de 3 mil cooperativas e mútuas, com posição dominante em bancos, supermercados, laticínios e indústria florestal.
Cerca de 80% dos finlandeses participam de ao menos uma cooperativa, segundo a Pellervo Coop Center, entidade que representa o setor no país. O dado voltou a circular em 23 de outubro, em reportagem do portal MundoCoop. O levantamento mostra como organizações de propriedade coletiva chegaram à liderança em mercados maduros e competitivos da economia finlandesa.
Com cerca de 5,6 milhões de habitantes, a Finlândia soma mais de 3 mil cooperativas e organizações mutualistas, que respondem por aproximadamente 7 milhões de vínculos associativos. O número supera a população porque uma mesma pessoa pode ser associada a mais de uma organização.
Bancos e supermercados controlados por associados
No sistema financeiro, o principal exemplo é o OP Financial Group, maior grupo financeiro da Finlândia. Ele reúne 93 cooperativas bancárias locais e uma cooperativa central, com mais de 2,1 milhões de proprietários-clientes. Segundo a Finance Finland, associação do setor financeiro do país, o grupo detinha 40,8% dos depósitos e 34,2% dos empréstimos das instituições de crédito ao fim de 2024.
No varejo alimentar, o S Group, formado por 19 cooperativas regionais de consumo, ficou com 49% do mercado em 2025, de acordo com a associação finlandesa do comércio de alimentos (PTY). As vendas combinadas do grupo chegaram a 15,4 bilhões de euros no ano, com resultado operacional de 495 milhões de euros. O sistema também distribuiu um valor recorde de 558 milhões de euros em bônus e benefícios aos associados.
Indústria e seguros seguem a mesma lógica
A presença cooperativa vai além do consumo e do crédito. Na agroindústria, a Valio pertence a cerca de 3 mil fazendas leiteiras organizadas em cooperativas e registrou receita líquida de 2,4 bilhões de euros em 2025.
Na indústria florestal, o Metsä Group é controlado por uma cooperativa que reúne aproximadamente 90 mil proprietários de florestas. O grupo teve vendas de 5,8 bilhões de euros no ano passado. Já no mercado de seguros, a LocalTapiola reúne 19 companhias mútuas regionais e atendia 1,84 milhão de clientes em 2025.
Um modelo construído ao longo de mais de um século
A base desse sistema foi lançada no fim do século XIX, quando a Finlândia ainda tinha economia predominantemente agrícola. A Pellervo foi fundada em 1899 para difundir o cooperativismo e apoiar a criação de novas organizações, e a primeira lei cooperativa do país entrou em vigor em 1901.
Um traço comum aos grandes grupos finlandeses é a integração entre unidades locais e estruturas centrais. As cooperativas regionais mantêm a proximidade com os associados, enquanto a estrutura central concentra tecnologia, marca, serviços compartilhados e gestão. Esse desenho tende a ampliar a capacidade competitiva sem exigir que cada unidade resolva tudo sozinha.
Especialistas lembram que a experiência não pode ser copiada integralmente por outros países, já que depende de condições históricas, legais e sociais próprias.
Cooperativa como estrutura de negócio, e não improviso
Para empresas brasileiras, o caso finlandês ajuda a desfazer a imagem de que cooperativa é uma solução informal ou provisória. Os exemplos mostram organizações com governança, indicadores de desempenho e gestão profissional disputando mercado com grandes grupos privados.
Os ramos são diferentes. Na Finlândia, o destaque está no consumo, no crédito e na agroindústria, enquanto no Brasil as cooperativas de trabalho seguem a Lei 12.690/2012, que tem como pilares a autonomia e a autogestão. Nesse modelo, o profissional é sócio da cooperativa, e não empregado da empresa que contrata o serviço. A lógica de integrar unidades a uma estrutura central também aparece por aqui, nas centrais que reúnem cooperativas singulares e organizam serviços compartilhados.
Para empresas que já contratam parte da operação por meio de cooperativas, ou que avaliam esse modelo de operação, a referência reforça um ponto prático. O que sustenta o modelo é estrutura, regras claras e acompanhamento por entregas e resultados. Os ganhos para cada empresa dependem da realidade da operação e de análise caso a caso.
