A prévia da inflação veio abaixo do esperado, mas o acumulado em 12 meses passou do teto da meta, e os serviços que dependem de pessoas sobem em ritmo mais forte.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, subiu 0,32% em outubro, segundo dados divulgados na sexta-feira (23). O resultado ficou abaixo dos 0,70% de setembro e da mediana das projeções do mercado, de 0,44%. Mesmo assim, o acumulado em 12 meses passou de 4,47% para 4,62% e superou o teto da meta de inflação, de 4,5%. A leitura dos economistas é que o alívio veio de itens voláteis, enquanto os serviços que dependem de mão de obra continuam em alta.
Energia e passagens aéreas explicam o recuo
Dois itens puxaram o índice para baixo. A energia elétrica caiu 0,89% com a bandeira tarifária verde, depois de subir 7,42% em setembro. As passagens aéreas recuaram 9,24%, devolvendo parte da alta de 9,82% do mês anterior.
Na outra ponta, o grupo alimentação e bebidas subiu 0,88%, com altas fortes em produtos in natura. No ano, o IPCA-15 acumula 4,15%.
Serviços intensivos em trabalho aceleram
Serviços intensivos em trabalho são aqueles em que o pagamento de pessoas responde pela maior parte do custo, como serviços pessoais, de reparo e de manutenção. O Banco Central acompanha esse grupo de perto porque ele mostra a pressão do mercado de trabalho sobre os preços.
Pelo cálculo da XP Investimentos, esses serviços subiram 0,55% em outubro, acima dos 0,52% projetados pela casa. Em 12 meses, a alta passou de 7,29% para 7,43%. O núcleo de serviços, que exclui os itens mais voláteis, avançou 0,45% no mês e chegou a 5,51% em 12 meses.
Os aumentos também ficaram mais espalhados. O índice de difusão, que mede a parcela de itens com alta de preço, foi de cerca de 54% em setembro para perto de 59% em outubro. Na avaliação da XP, a demanda doméstica resiliente e o mercado de trabalho ainda apertado mantêm pressionados os componentes mais inerciais da cesta, aqueles que costumam carregar a inflação passada para os preços seguintes.
Por que esse grupo pesa mais nos contratos
Quando a mão de obra é o principal custo de um serviço, o reajuste salarial do setor tende a chegar ao preço cobrado do cliente. É o caso de contratos de limpeza, manutenção predial, segurança, atendimento, suporte de TI e serviços administrativos terceirizados.
Para as empresas que contratam esses serviços, a consequência aparece nas renovações. Muitos contratos têm reajuste anual ligado a índices de preços, e os preços desses serviços sobem hoje acima da inflação geral, 7,43% contra 4,62% em 12 meses.
Copom decide os juros em 3 e 4 de novembro
A Selic está em 13,75% ao ano. Antes do segundo turno das eleições, a maior parte dos economistas ouvidos pelo InfoMoney esperava novo corte de 0,25 ponto na reunião de novembro, enquanto outros, como o C6 Bank, já projetavam manutenção da taxa. Depois da votação, a alta do dólar levou parte do mercado a rever as apostas em direção a uma pausa.
Para a inflação, a XP manteve a projeção de 5,1% em 2026 e 4,4% em 2027. Estimativas como essas podem mudar com o câmbio, o clima e a política fiscal dos próximos meses.
Orçamento de 2027 pede contratos mais claros
Com a inflação de serviços acima da média, a revisão de contratos para 2027 tende a exigir mais detalhe. Separar o que é reajuste por índice do que é mudança de escopo ajuda a empresa a entender por que um contrato ficou mais caro e onde há margem para negociar.
Contratos organizados por entregas, metas e resultados facilitam essa conta, porque deixam explícito o que está sendo pago. Também ajuda olhar o índice de reajuste previsto em cada contrato. Um serviço corrigido pelo IPCA cheio deve subir menos que o custo real do fornecedor com pessoal, e essa diferença costuma voltar à mesa na renovação.
Nenhum formato de contratação isola a empresa da inflação, e qualquer comparação de custos depende de análise caso a caso. O ganho possível está na previsibilidade de saber o que se paga e por quê, antes que o reajuste chegue.
