O Google vai apoiar um projeto climático em mais de 200 mil hectares de lavouras de arroz no Rio Grande do Sul. Em parceria com a Terradot, a iniciativa combina mudanças no sistema de irrigação para reduzir emissões de metano com a aplicação de rochas moídas no solo para remover dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera.
O projeto utiliza duas estratégias com efeitos em períodos diferentes. A primeira busca diminuir as emissões de metano geradas no cultivo de arroz, enquanto a segunda utiliza o chamado intemperismo acelerado de rochas, conhecido pela sigla ERW (Enhanced Rock Weathering), para promover a remoção durável de CO₂.
A Terradot é especializada nessa tecnologia e tem o Google entre seus investidores. Segundo as empresas, a iniciativa no Rio Grande do Sul é o maior projeto de ERW já anunciado no mundo e o primeiro nessa escala a combinar a redução de metano com a remoção de carbono.
Pelo acordo, o Google comprará o equivalente a 1 milhão de toneladas de impacto na redução de metano até 2030 e 1 milhão de toneladas de remoção de carbono até 2040.
As duas metas serão contabilizadas e verificadas separadamente. No caso do metano, o número representa a redução das emissões convertida em CO₂ equivalente. Já a segunda meta corresponde à retirada de CO₂ da atmosfera por meio do processo envolvendo as rochas.
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Novo manejo pode reduzir metano nas lavouras
A primeira etapa envolve uma mudança na irrigação das plantações. A Terradot ajudará produtores a adotar o sistema Alternate Wetting and Drying (AWD), ou irrigação por molha e seca alternadas. Em vez de manter os arrozais continuamente alagados, o método estabelece períodos de drenagem antes de uma nova irrigação.
A redução do tempo em que o solo permanece alagado diminui as condições favoráveis à formação de metano durante o cultivo. Estimativa citada pela Reuters aponta que os arrozais respondem por aproximadamente 10% a 12% das emissões globais de metano.
Segundo Google e Terradot, a adoção do manejo também pode reduzir o consumo de água e os custos relacionados aos insumos utilizados pelos produtores.
Basalto será utilizado para remover CO₂ da atmosfera
A segunda frente do projeto utiliza rocha vulcânica moída, principalmente basalto, aplicada sobre as mesmas áreas agrícolas.
O processo busca acelerar uma reação que já ocorre naturalmente. Quando a água entra em contato com determinados minerais presentes nas rochas, reações químicas contribuem para retirar CO₂ da atmosfera.
Ao triturar o material antes de espalhá-lo sobre o solo, a superfície de contato da rocha aumenta, acelerando o processo de intemperismo.
Segundo a Terradot, o carbono capturado dessa maneira pode permanecer armazenado por mais de 10 mil anos. A empresa também aponta que a aplicação do material pode contribuir para determinadas características do solo.

Projeto combina efeitos de curto e longo prazo
A proposta de utilizar as duas técnicas simultaneamente está relacionada ao tempo de atuação de cada uma.
A redução das emissões de metano pode produzir efeitos climáticos em um horizonte mais curto, enquanto o processo de remoção de CO₂ pelo intemperismo das rochas acontece gradualmente.
Dessa maneira, o projeto pretende combinar a diminuição de um gás de efeito estufa de curta duração com uma tecnologia destinada à remoção durável de carbono.
As duas estratégias, porém, possuem métricas diferentes e serão avaliadas separadamente ao longo do projeto.
Área pode ser ampliada para outras regiões produtoras
A primeira etapa será realizada em mais de 200 mil hectares no Rio Grande do Sul, estado que concentra uma parcela relevante da produção brasileira de arroz.
Segundo as empresas, características como o cultivo irrigado e a proximidade de fontes de basalto favorecem a implantação da tecnologia na região.
A iniciativa foi estruturada para permitir uma expansão futura. O Brasil possui mais de 1,5 milhão de hectares cultivados com arroz, e a Terradot afirma que o modelo poderá ser replicado em outras áreas produtoras.
A empresa também pretende testar a abordagem em outros países com forte produção de arroz, incluindo Índia e Vietnã. A previsão apresentada é realizar projetos-piloto internacionais em 2026 e avançar para uma expansão comercial a partir de 2028.
Valor do acordo não foi divulgado
Google e Terradot não informaram o valor financeiro do novo contrato nem quanto da receita relacionada aos créditos climáticos poderá ser destinada aos produtores participantes.
Em um acordo anterior, anunciado em 2024, o Google adquiriu 200 mil toneladas de créditos de remoção de carbono da Terradot e também realizou um investimento na empresa.
Informações divulgadas pela Reuters apontaram que outro contrato envolvendo 90 mil toneladas de remoção de carbono da Terradot indicava um preço próximo de US$ 300 por tonelada.
A empresa afirma que o novo projeto terá um custo inferior, embora ainda não tenha alcançado o patamar de US$ 100 por tonelada apontado por participantes do setor como referência para uma expansão mais ampla desse mercado.
Google quer testar modelo para aplicação em maior escala
A Terradot afirma já ter aplicado mais de 500 mil toneladas de rocha em aproximadamente 20 mil hectares em diferentes projetos.
Os dados obtidos nessas áreas são utilizados para selecionar novos locais, determinar a quantidade de material necessária e acompanhar os resultados relacionados à remoção de carbono.
O acordo com o Google também prevê uma bolsa de pesquisa destinada à Terradot e ao laboratório de Solo e Biogeoquímica Ambiental da Stanford Doerr School.
A pesquisa deverá aprofundar os estudos sobre a redução das emissões de metano proporcionada pelo manejo AWD. Segundo as empresas, os resultados obtidos serão disponibilizados publicamente.
Com a iniciativa no Rio Grande do Sul, Google e Terradot pretendem avaliar se a combinação entre redução de metano no cultivo de arroz e remoção de CO₂ por meio de rochas pode ser aplicada em escala maior no Brasil e, posteriormente, em outras regiões produtoras.
Foto: ChatGPT

