O primeiro relatório State of the Industry do Web Summit mostra que a maioria dos profissionais de tecnologia sente mais trabalho com a IA e que 42% esperam times menores e menos vagas de entrada.
O avanço da IA no mercado de trabalho de tecnologia ainda não trouxe a redução de tarefas que a ferramenta prometia. Segundo o relatório State of the Industry, divulgado pelo Web Summit em 22 de outubro, 59% dos 1.455 fundadores, investidores, engenheiros e criadores ouvidos dizem que a IA aumentou sua carga de trabalho. Só 20% relatam alívio, e outros 20% não perceberam diferença. A pesquisa foi feita entre julho e agosto com a comunidade global do evento e divulgada antes da edição de Lisboa, marcada para 9 a 12 de novembro.
Sobrecarga de trabalho é maior perto da IA
Entre profissionais de infraestrutura de IA e machine learning, 70% afirmam trabalhar mais. O índice é de 68% em SaaS e software empresarial e de 67% em hardware e internet das coisas.
Por função, engenharia e produto lideram, com 64%, seguidos pelos fundadores, com 63%. Os investidores, que acompanham a operação de longe, são os que menos sentem o efeito (42%).
Um dos engenheiros ouvidos resumiu a lógica no próprio questionário. A IA acelera a produção e, com isso, sobe a expectativa sobre quanto a equipe consegue entregar, enquanto sobra pouco tempo para revisar o que a ferramenta gerou. Na prática, o ganho de produtividade vira meta nova.
Times menores e menos portas de entrada
Para 42% dos entrevistados, o futuro reserva equipes menores entregando mais. Entre fundadores, a fatia chega à metade. Apenas 9% esperam times maiores.
O mesmo percentual de 42% acredita que suas empresas terão menos vagas de entrada nos próximos dois anos. A expectativa sobe para 50% entre executivos de alto escalão e para 58% entre investidores. Os estudantes destoam, com 55% prevendo mais oportunidades para iniciantes.
No saldo geral de vagas, o setor segue dividido. São 39% que esperam crescimento do quadro em sua área, 33% que preveem encolhimento e 28% que apostam em estabilidade. A preocupação com o próprio emprego é maior entre jovens de 18 a 24 anos (45%) do que entre quem tem 55 anos ou mais (32%).
Otimismo apesar do volume maior
O aumento da carga não se traduziu em pessimismo. Para 55% dos entrevistados, a IA fortalece o pensamento crítico, contra 26% que veem efeito contrário. Na América Latina, a avaliação positiva chega a cerca de 70%, ante 49% na Europa. Os engenheiros são os mais céticos, com 37% dizendo que a tecnologia enfraquece seu raciocínio.
O uso também está espalhado. Os profissionais recorrem, em média, a 2,3 fornecedores de IA generativa, e 43% usam três ou mais.
Os dados ajudam a medir os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, mas têm limites. A amostra pende para quem constrói produtos, justamente o grupo que adotou a IA primeiro, e mede percepções. O relatório não mostra que cortes de equipe já estejam acontecendo.
Inteligência artificial nas empresas pede entregas bem definidas
Se a expectativa é fazer mais com times menores, o risco é a produtividade extra virar sobrecarga permanente para quem fica. Para empresas de software, startups e áreas de tecnologia de companhias tradicionais, os dados reforçam a importância de definir com clareza o escopo e o prazo de cada demanda, além de reservar tempo para revisar o que a IA produz.
Outra resposta possível é separar o núcleo fixo da equipe das demandas pontuais que exigem conhecimento específico, como integração de modelos de IA generativa ou segurança da informação. Nesses casos, contratar especialistas por projeto, com entregas e resultados acordados desde o início, tende a evitar que a estrutura fixa cresça além do necessário. O efeito depende do tipo de operação e da forma como cada contrato é acompanhado.
A redução de vagas de entrada também pede atenção. Sem iniciantes hoje, pode faltar gente experiente amanhã. O alerta aparece entre os próprios engenheiros ouvidos pela pesquisa.
